Arquivado em: cosmopolitanismo, cultura, educação, filosofia, folclore, globalização, mitologia, mundo, mídia, nação
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Estudar em uma universidade internacional em Paris pode ser um perigo para a sanidade mental e até mesmo para a auto-estima. Em uma sala de aula com 20 alunos existem, segundo as estatísticas da própria universidade (comprovadas por experiência própria), aproximadamente 14 nacionalidades diferentes. Este semestre me registrei em um curso chamado “Media Globalization”. A matéria é interessante, embora pareça apenas um repeteco de tudo o que é visto na maioria dos cursos de comunicação. Discutimos basicamente o efeito que a mídia e a globalização exercem na soberania de cada país. Um dia desses estávamos discutindo o termo “cosmopolitismo”, que pode ser definido de modo sucinto como um pensamento filosófico que considera os homens como formadores de uma única nação, não vendo diferenças entre as mesmas, avaliando o mundo como uma pátria. Durante essa discussão, que estava indo para o caminho de sempre, os alunos estavam basicamente sugerindo que apenas pessoas “culturalmente elevadas” poderiam alcançar esta tal “harmonia social”. Até aí tudo bem, mas ainda assim quem seria capaz de julgar o que é ser “culturalmente superior”? Durante a discussão eles julgavam Europa como uma sociedade “culturalmente superior” e, portanto, “cosmopolitana”. Mas aí eu me pergunto: existe uma calculadora capaz de precisar tais cálculos? E ainda que essa tal calculadora existisse, a pessoa que a inventou estaria levando em consideração todas as circunstancias morais, culturais e sociais do mundo?
Existe uma diferença NADA sutil entre cultura e educação, e poucos parecem notar. Cultura é definida como “aspecto da vida social que se relaciona com a produção do saber, arte, folclore, mitologia, costumes, etc., bem como à sua perpetuação pela transmissão de uma geração à outra”, sendo assim podemos estabelecer que absolutamente todos os seres humanos (fumantes ou não) “têm cultura”. Um índio da tribo Hupda, e até mesmo quem diria, nosso engravatado amigo Hans-Gert Pöttering (presidente do Parlamento Europeu), tem cultura, e o mais intrigante é que ninguém jamais poderá julgar quem é culturalmente superior. Cultura é algo imensurável! Já educação é geralmente definida como “ensinar e aprender. Fenômeno visto em qualquer sociedade, responsável pela sua manutenção e perpetuação a partir da passagem, às gerações que se seguem, dos meios culturais necessários à convivência de um membro na sua sociedade”. Concordando ou não com os padrões utilizados, temos que concordar que os homens inventaram maneiras de medir o nível de educação dos indivíduos que habitam o planeta terra. Nesse caso, o índio e Hans-Gert Pöttering continuam empatados, já que o índio provavelmente – por motivos que não discutiremos agora – não teve acesso ao que esses tais homens estabeleceram como educação, e Hans-Gert Pöttering que não importa a formação acadêmica que tenha tido, continua sendo um SEM EDUCAÇÃO. A proposital ambigüidade das palavras serve para mostrar como o mundo é feito de parâmetros que sempre deixam uma considerável parcela da sociedade de fora. Parâmetros estes estabelecidos e reforçados pela sociedade que ainda não consegue distinguir a diferença entre educação e cultura. Lembrando que esta é a mesma sociedade a julgar o seu grau de educação e, porque não, o seu “nível cultural”. Já conheci muito brasileiro deslumbrado com a cultura e educação alheia, pessoas que tem como sonho de consumo “tomar um banho de cultura na Europa”. Vivendo aqui, sendo uma “Outsider” (citando em inglês o título do melhor livro de Camus, para demonstrar meu elevado nível educacional), eu entendo a cada dia de forma mais clara que cultura todos tem, mas que “educação vem de berço”.
4 Comentários até o momento
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Realmente, foram as pessoas que se julgam culturalmente superiores que criou este padrão e que se consideram capazes de mensurar a cultura e educação alheios. Mas se ser culturalmente superior, engloba ser financeiramente mais “forte”, então realmente poucas são as pessoas capazes disso, e também, olhando por esta ótica, vemos claramente o quanto essas pessoas conseguem alcançar esta harmonia social, a exemplo um dos países mais ricos do mundo, como o próprio EUA, em que criancinhas planejam a morte de seus professores, alunos de faculdades renomadas( logo pessoas de muitas posses), metralham seus companheiros. Realmente, é um exemplo para nós pessoas culturalmente inferiores incapazes de formar uma nação.
Bjs
Comentário por Amanda Catelan Abril 03, 2008 @ 2:40 pmTenho que dizer que eu era uma das pessoas que achava que cultura era algo que parecia estar mais ao alcance da classe A ou B do que das inferiores. Hoje em dia acredito que qualquer pessoa pode ter acesso a cultura e contato com suas diversas manifestações. Li em uma revista essa semana que 58% da classe A de São Paulo diz não ter hábito de ler livros, o que eu considero um dos meios mais antigos de se adquirir cultura(saber, conhecimento).
Comentário por Vânia Abril 06, 2008 @ 1:15 pmNem sempre quem tem poder aquisitivo sabe usar a mente para produzir algo bom com ela, ou compartilhar algo com outros.
Educação vem de berço, e ela é muitas vezes melhor nos que não são feitos de ouro.
As pessoas tem mania de confundir educação com cultura sim! E isso é meio absurdo porque são duas coisas bem diferentes, não sei da onde surgiu essa ‘confusão’ toda! Medir cultura alheia é uma coisa difícil, talvez um índio do Acre que anda pelado tenha mais cultura que uma pessoa julgada ‘culturalmente superior’, ( por ela mesma )afinal esse “padrão” é bem “comum” comparado a cultura indígena, que é uma coisa já quase extinta. Logo a cultura do índio que anda pelado valeria mais que a cultura de um européu padrão se fosse medida em um culturômetro! Ou não… Isso é complexo demais!
Comentário por Vanessa Abril 07, 2008 @ 1:16 pmLegal a idéia de ter um blog pra escrever pensamentos randômicos!
Beijos
excelente texto, nao tenho nem o que comentar! Eu queria que um dia todo brasileiro pudesse sair do pais por um ano que fosse… eles iam perceber como fazem parte de um pais lindo e rico. independente de trabalhar muito pra receber 300 reais no final do mes, o brasileiro prova pra qualquer um o poder da sua cultura, indo pro barzinho na sexta a noite tomar a sua cervejinha com os amigos!! cerveja, farofa, pagode, pacoca.. isso sim e q e cultura!!
Comentário por Lili Abril 08, 2008 @ 6:47 am(desculpem a falta de acentos aqui no super computador da universidade…)
ahhh e detalhe: todos deveriam ler camus, e mt legal!!